segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Encontros

o pensamento vinha rebelde, leve, solto: balão afogueado... e, entre a parede e o carro na calçada, confundiu-se com a mulher de cabelo rebelde, leve, solto: visão afogueada. sorriram, o pensamento e a mulher, sorriram os cabelos e as roupas folgadas e coloridas dela. algo foi encontrado. algo sagrado. algo inominável. sorriram, o pensamento e a mulher, sorriram os cabelos e as roupas folgadas e coloridas dela. e o pensamento fugiu sem olhar pra trás, tinha medo de um terceiro sorriso.

domingo, 30 de agosto de 2015

Vazio

vivia: entre as coisas; as coisas; das coisas. traça tão laboriosa, opulenta, vistosa. o labor. o ter. o prazer. por fim, a morte: "uma comédia abrupta de idas e vindas em uma manhã de sábado, seguida, em poucos dias, de um enterro e de uma placa amarela 'Vende-se' à frente da casa [...]"*


* John Updike 
("Brincando com dinamite", in Uma outra vida - contos. Tradução: José Antonio Arantes. São Paulo: Companhia das Letras,1996.)

sábado, 29 de agosto de 2015

Peixeira

porque, quando vira peixe, é sempre um se afogando na superfície. por isso o receio do mar, a aversão ao silêncio do bloco de água escuro que cala a boca do lago, a desconfiança do canto em dó maior da correnteza. sempre essa água nos interstícios das células, nos vãos do corpo, nos ocos... a aguardente que seca. sempre esse medo.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O poema do sonho

o poema, no sonho, se perdeu. a mão criava fractais, retalhos de poemas e papéis rejeitados. o poema acabado não se achava, perdido nos bolsos, nas dobras de ser. angústia. alvoroço. em que canto foi escrito? sonho de coisas perdidas. procurar é criar cantos, máquinas, onde travestir em achado o perdido. se ela soubesse o quanto visita estes sonhos... figura branca espectral, lânguida, etérea, sonora... mas ali, as mãos se uniam e se soltavam, dúbias, no caminho escuro. por fim, soltaram-se e ela escureceu. virou multidão. quem sabe, não levou o poema? ela não imagina que visita estes sonhos. talvez nem volte mais. sonhos são lugares de entrada e saída anunciada. ela chegou a desoras. sentou. passou um tempo. agora andou. partia? só os idos dirão se não mais voltará. tem gente que veio, deixou os cantos dos sonhos puídos, foi partindo e nunca mais voltou. teceu distâncias... o sonho era o final de expediente de rotinas perdidas e, antes dos últimos partirem, ele acabou no amargo da busca antes de romper o último fio de esperança.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O trágico

ser humano é ser trágico. o amor pisca prazer e dor, o sangue é círculo de céu e chão vermelho batido. a face sadia do eterno retorno: o ciclo das águas, a ciranda das estações, a roda da fortuna, a taça ora cheia, ora vazia... nessa serena harmonia, cortar a dor é amputar o prazer.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O Riso

o riso gratuito é falso, como promessas políticas. o riso só faz sentido como resistência, na tessitura da palavra afiada como arma, que reivindica, que transforma. o riso da máscara anônima, o riso anarquista a todo abatimento. o riso que desarticula toda forma de opressão. não confunda. este é o único riso que deve estampar a cara do povo deste país.

Riso

riso é passarinho que a gente tenta jogar no ar e fazer voar na esperança de criar uma epidemia de risos pra colorir os dias.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Bela Vista

perdida na rua, olhos encontrados nas coisas, conversas sentadas na calçada, sorvetes, festa de santa, turistada.

domingo, 23 de agosto de 2015

Fluxo

aguou-se. a gente se água pra se chegar, pra se ajuntar, pra se amar. água-se e mistura nos seres outros, ser mutante, ser aquoso, ser todo. água e desilha, come a terra, serpenteia a vista, mareia, dilui a cadeia de seres... a mulher pássara, o elefante peixe... tudo baleia.

sábado, 22 de agosto de 2015

Elas e as praças

ela criava galhos, verdejava. parada na praça, pensamentos nos idos. já a voz desconhecia. o corpo remoía terços esquecidos da alma, calada, apagada. não gemia. não comia. tomava sol. tomava pedra. ouvia o vento de contos de folhas secas bolinar no pé do ouvido. ouvia a vida distante de gente, de automóvel, no desvio do seu ser. o outro desexistia, era fantasia. e, no seu canto, virava árvore sem frutos, depois morte e adubo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Elas e a rua

na rua, a mulher, rodeada de silêncios, empilha seus pertences: trapos, caixas, dores... a calçada larga, a cara flácida, ajeitando a existência no frio de papelão, na força da mão que ajuda a outra. ela se esconde no desvio do olhar, nos obstáculos de seu corpo subindo paredes, fronteira imaginária, a face oculta da lua: mulher, preta, pobre, à margem, mas ainda atiçando a chama final da dignidade.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Apego

há um quê
de covardia
na gota que se agarra
à torneira
para não cair na pia.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Outras mortes

há dois tipos de mortos 
no seu inventário:
os biológicos --
como as árvores,
os bichos, as pessoas 
e outros seres mortais --
e os que decidiram
morrer para ele.
estes vagam por aí,
em festas e cheios de vida.

Falta de vitamina D

alguns explicam a depressão como um cachorro preto. às vezes, acordo com um elefante adulto e gordo sentado sobre meus ombros (dói, oprime), mesmo assim, não acho que seja depressão. nesse dia, o mundo silencia, vêm saudades, fantasmas de pessoas ainda vivas, tantas sombras, quase não respiro de tão fundo que estou em mim... mas então, lá do fundo, vem um riso, como se lá dentro alguém gostasse muito de elefantes e estivesse fascinado por finalmente conhecer um de tão perto, e a gente começa a respirar, a crescer, a querer dançar, tocar e abraçar... então, a gente sai pra passear.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Melancolia

nos fins de tarde, cortava relógios mecânicos para observar o tempo fluido e invisível entre engrenagens de palavras caladas no oco de um adeus.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Erro

o erro bifurca o caminho, cria o labirinto e o minotauro, infinitas vias, infinitos seres. o erro é a vida! o erro é o caldeirão das espécies, operário da evolução. o erro multiplica os mitos: eva e adão no paraíso, o cristo na cruz, quixote e os moinhos de vento... as esquerdas de extrema direita. fonte insecável, o erro é a mão de deus.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Desencanto

o espanto aninhado no canto do lábio, trêmulo, absorto, perdeu-se no ponto final do pensamento que vinha tímido dizer seu amor, dizer as flores, dizer as cores, colibris e querubins... e se perdeu assim, dirigível de cera pertinho do sol assistindo à explosão de Hiroshima: cogumelo de farinha calcinando, prostrando-se sobre as cinzas das ideias de um amor.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

terça-feira, 4 de agosto de 2015